What a… what a fool world

Poesia | Sem Comentários »

I see elderly’s spleen, cyanosicaly blue
I see them gloom, because of me and you
This is turning my head, as a awful whirl
And I think to myself, what a… what a fool world

I see guys sniffing glue, with no proud and no bright
Badly dressed as a clown, and walking as a sprite
This is turning my head, as a awful whirl
And I think to myself, what a… what a fool world

Is the rainbow a pretty thing?, please tell me, I wonder why
I only see sullen faces, in the people near by
I see hands with bad trends, blasting towers in New
What they are really saying, is “I hate ank kill you”
This is turning my head, as a awful whirl
And I think to myself, what a… what a fool world

I see babies near dying, all the time as a flow
Even with a great learn, the reason they couldn’t know
This is turning my head, as a awful whirl
And I think to myself, what a… what a fool world


O Advogado do Diabo, A Visualização de Cenários, e a Reformulação Mútua Induzida

Crónica | Sem Comentários »

A figura Advogado Do Diabo caracteriza uma entidade que coloca defeitos de toda a ordem num projecto que lhe seja apresentado; esta função pode ser exercida por um grupo de pessoas, mas será mais eficaz se o for só por uma, devido à facilidade com que se podem anular os defeitos colocados por cada um dos intervenientes.

O Advogado do Diabo não procura a perfeição; ninguém procura o que desconhece; ele só conhece defeitos e problemas, e fà-los notar até à saciedade; qualquer que seja o projecto, ou parte dele, tem necessariamente defeitos e nunca virtudes; partindo deste pressuposto, o Advogado do Diabo aplica, até à náusea, todas as redutoras Leis de Murphy, e mais algumas que ele próprio tenha inventado; ou invente no exacto momento em que analisa o projecto.

Depois de os criadores do projecto o terem reformulado, limando aqui, purificando acolá, em função das suas críticas, o Advogado do Diabo apontará sempre mais defeitos; talvez até os mesmos, também eles reformulados, num ping-pong exasperante entre uma perfeição dúbia, por um lado, e um rol de imperfeições certas e concretas, por outro; e fará isto até ao infinito, se o deixarem; por ele, o projecto nunca será definitivo.

A Visualização de Cenários também é um processo exaustivo, aplicado a um projecto, pelo qual se vão formulando questões sucessivas, avançando no tempo, na presunção de que o projecto está completo e vai ser implementado.

Em cada fase ou detalhe particular do projecto, virtualmente já em execução, far-se-ão perguntas de modo a tentar perceber as alterações do meio ambiente que este novo fenómeno vem provocar; todas as implicações, reacções, retracções, adaptações, aceitações, serão tidas em conta; se o retorno for favorável às expectativas do projecto ele será validado, neste particular, e passar-se-á para o detalhe ou fase seguinte; se for contraditado, haverá que proceder a nova análise deste detalhe, se não de todo o projecto; claro que o Advogado do Diabo entrará novamente em cena, ainda com mais convicção, ainda com mais audácia, posto que lhe confirmam a pertinência das suas objecções anteriores, que ele tão prontamente apontou de dedo em riste.

Convém acrescentar que a Visualização de Cenários também poderá ser levada a cabo ad-eternum; não existe nenhum projecto que seja completamente imune às contradições; nada é perfeito.

A Reformulação Mútua Induzida não é um processo exaustivo, mas é permanente e natural; considerando o universo como um sistema fechado, podemos dizer, com Lavoisier, que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”; em qualquer interactividade entre dois ou mais fenómenos, todos tendem a uma redefinição das suas próprias características e propriedades, a uma reorganização recíproca, até alcançarem uma estabilidade interdependente; mas esta estabilidade será sempre provisória e dinâmica; basta que outro fenómeno se venha imiscuir na estabilidade da relação, para obrigar a um novo processo reorganizativo.

Se os fenómenos forem físicos, a própria natureza se encarrega de proceder a essa reorganização, com a perícia que tem demonstrado; se os fenómenos forem sociais, caberá ao homem essa tarefa, estudando cedências, afirmando atitudes, arranjando consensos.

Se aplicarmos estas noções a um projecto, fica claro que este terá que ser reexaminado, pois ele perdeu a sua validade pela entrada de um fenómeno não considerado na sua concepção.

E também fica claro, é claro, que o nosso amigo Advogado do Diabo e a nossa amiga Visualização de Cenários darão a sua útil e imprescindível contribuição, neste novo paradigma.


A Noite Real

Conto | Sem Comentários »

Preâmbulo

Publicou a revista SÁBADO, na sua edição Nr.188, um conto “de natal”, a que deram o título de “A noite ideal”.
Não venho, porque não me compete, tecer comentários sobre o valor do dito conto; deixo essa responsabilidade à consciência, ao critério e à inteligência dos leitores. Venho, isso sim, chamar a atenção para um facto indesmentível e sobejamente conhecido das artes literárias, esquecido e menosprezado pelos leitores comuns, e que faz com que a percepção e a compreensão dos trabalhos literários não seja a mais correcta. Refiro-me, concretamente, a isto: a ficção tem sempre a realidade como seu suporte.

Os escritores de ficção, manhosos, usam de artifícios de linguagem que cavam um fosso, mais ou menos profundo, entre as suas elocubrações literárias e a realidade subjacente; é certo que os leitores mais perspicazes conseguem contornar as espertezas dos literatos; mas também é certo que ainda existem leitores, infelizmente muitos, que não dominam as técnicas da subtileza, do engodo e da mistificação. Para esses, estou agora a dar o meu contributo com uma explicação, cabal e fidedigna, da realidade dos factos que deram origem ao tal conto.
Foi assim…

Na Redacção (I)

“Cada um define-se para sempre num só instante da sua vida, um momento em que o homem se encontra para sempre consigo mesmo”. Tinha acabado de ler esta passagem do livro que o seu adjunto lhe oferecera, quando o adjunto em pessoa lhe entra pelo gabinete; de rompante, sem bater à porta, e sem aviso…

- Chefe, temos um problema!

O Chefe Miguel guardou rapidamente os amendoins na gaveta da secretária, limpou o sal da camisa, pousou o livro e perguntou:

- O que é que se passa!?

- Não temos o artigo de fecho da Revista Especial! – disparou o adjunto Gonçalo, dispensando temporariamente a sua habitual fleuma no trato com o Chefe Miguel.

- Mas que porra quer você dizer com isso, ó Gonçalo!?… Temos o artigo do frilança!

- Não, não temos, Chefe! – confirmou o adjunto Gonçalo, preparando-se para as invectivas habituais.

- Olhe lá, ó Gonçalo, você sabe que eu não sou muito dado a raciocínios dedutivos; você sabe muito bem que eu sou um homem de acção, embora o meu corpo não o faça prever. Desembuche de uma vez! – disse o Chefe Miguel, já um pouco acalorado.

- Pois é precisamente ao artigo do frilança que eu me estou a referir. Ele entrou na redacção, veio direito a mim e disse-me, com o ar mais natural deste mundo: “- Não trago o artigo!”.

O Chefe Miguel, já com algumas gotas de suor a aflorar-lhe a face besuntosa, esboçou um repentino e impossível levantar-de-cadeira, e vociferou:

- Vá-me já buscar esse gajo. Quero falar com ele, cara-a-cara!

O adjunto Gonçalo ofereceu o lenço para o Chefe Miguel limpar a cara. Se o gabinete fosse maior e tivesse uma cadeira suplementar, ele ter-se-ia sentado de bom grado; mesmo sem convite, mesmo que o chefe Miguel considerasse uma ousadia desrespeitosa. Ficou de pé, respirou fundo, e disse:

- Não é possível, Chefe. Ele já se foi embora!

- Mas esse gajo é parvo, ou quê? Não traz a merda do artigo, e vai-se embora como se não fosse nada com ele!?

- Não foi bem assim, Chefe. Antes de sair ainda balbuciou qualquer coisa sobre Hollywood, argumentistas, e tal. Confesso que não percebi muito bem onde ele queria chegar…

- Ó Gonçalo, homem! Então você que é uma pessoa inteligente, uma pessoa hábil na decifração e na tradução de comportamentos e ideias, não percebeu o alcance!?

- Confesso que não, Chefe!

- Pois olhe que eu percebo muito bem qual é a dele! Mas se ele não esperou para falar comigo, também não perde pela demora! Vá-me então buscar a Florbela, a estagiária. Nunca viu o seu nome na Revista, talvez seja desta. Publicamos alguma treta que ela tenha engavetada… Do mal, o menos!

- A Florbela não está cá, Chefe! – informou o adjunto Gonçalo, um pouco a medo.

- Não está? Saiu em reportagem!?

- Não, Chefe, a Florbela trabalha cá há seis meses mas ainda não faz reportagens… Não está, ninguém sabe dela!

- Carago, chiça, porra, merda! O frilança não traz o artigo, a estagiária não se encontra… Telefone ao jardinas, e pergunte se sabe onde ela está!

- Quem é o jar…!? – ia a perguntar o adjunto.

- O Jardineiro, o corno-manso, o marido da Florbela!

- Ok, Chefe, já entendi…

O adjunto Gonçalo apressou-se a fazer a ligação. Entre os bips da chamada ia relembrando os mexericos que já lhe tinham chegado aos ouvidos sobre a estagiária Florbela. Dizia-se, à boca-pequena, entre cochichos e sorrisos cúmplices, que a rapariga era uma mulher táctil, que gostava de tocar. Pensava, na altura, que se tratava de uma qualquer apetência por um instrumento musical, que a levavam a frequentes escapadelas da Redacção. Paternalista, tinha pactuado até com esse “pecado”, fechando os olhos, dada a sua condição de estagiária.
Tinha sido ingénuo. Percebia, agora, pelos adjectivos empregues pelo Chefe Miguel, que o instrumento era outro…

Durante o telefonema, o Chefe Miguel ia interrompendo: – ela está em casa? está doente? ele sabe onde ela se encontra? – mas o adjunto Gonçalo, maçado pelas interrupções, conseguiu, a custo, terminar o telefonema e responder à última pergunta:

- Ele não sabe de nada! Diz que ela saiu de manhã para vir trabalhar e ainda não apareceu em casa. Achou estranho perguntarmos por ela, pois pensava que a sua mulher estava aqui a fazer serão na Redacção, como vem sendo habitual há uns tempos para cá…

- Serão, pois claro!! Serão mais umas quecas que ela dá à pala da Redacção… – disse o Chefe Miguel, continuando a praguejar:

- Já estava à espera disto. Você deixa-me fugir o frilança, não sabe onde para essa pu.., essa estagiária de merda, e eu é que vou ficar com a criança nos braços! E agora, como é que saímos deste imbróglio!?

- Calma, Chefe! Talvez não esteja tudo perdido. Nós podíamos, pensando bem, colmatar este percalço a contento de todos. O Miguel e o Gonçalo…

O Chefe Miguel, interrompendo a sugestão do seu adjunto, soltou uma estrondosa e histérica gargalhada, e disse:

- Valha-me Deus, Gonçalo! Então você pensa que nós temos capacidade para escrever um artigo em três penadas para o fecho da Revista Especial!? Não me lixe!

- Desculpe, Chefe, não me deixou acabar… Estava a pensar no Miguel Esteves Cardoso e no Gonçalo M. Tavares!

- Ah, esses! E eles engolem?

- Bem, engolir, engolir, não sei! Mas se o Chefe puxar pelos galões e, ao mesmo tempo, dourar a pílula com argumentos natalícios, creio que sim, que aceitarão!

- Talvez sim, talvez sim… Chame-os lá, então! – terminou o Chefe Miguel.

Depois do seu adjunto sair do escritório, o Chefe Miguel recostou-se na cadeira, abriu a gaveta da secretária, retirou uma mão cheia de amendoins salgados e encheu a bocarra de uma só vez.
Acendeu um cigarro e continuou a empestar o seu minúsculo escritório, enquanto recordava o percurso que o tinha levado até àquela posição de chefia:

- Se eu puxar pelos galões, eles engolem! Quase de certeza…

Na Pensão

- Vou lá amanhã, já tarde, e dou-lhes a novidade: não há artigo para ninguém!

Ela ouviu, mas não disse nada. Enroscou-se ainda mais no corpo dele, apertou-o com força, e deixou-se ficar assim, em concordância.
Era uma mulher culta, sabia escrever, mas era um pouco austera em comunicação linguística; talvez por isso se tenha habituado a sintetizar em metáforas pensamentos, ideias e filosofias que outros, com mais propensão para o diálogo, levavam uma eternidade para explicitar; como esta que agora lhe vinha ao pensamento: “Amor, com amor se paga”.
A relação com o marido tinha vindo a decair desde o dia em que conheceu o seu freelancer; andava aguada, e cada vez mais insípida. Em tons desbotados, num flagrante contraste com o colorido das hortênsias, dos gladíolos, dos jarros, das margaridas com que o jardineiro teimava em ocupar a maior parte do tempo, com aqueles sapatos novíssimos, ofensivamente brilhantes, a pisar a terra do jardim. Porquê!?

(as ciências médicas sugerem a utilização, sempre que possível, de técnicas não intrusivas. Na literatura, essa preocupação também deve estar presente; por isso, uso esta parêntese para dar uma achega pessoal na clarificação do tropo metáfora. Embora ela seja mais conhecida como figura de estilo linguístico, a metáfora também pode ser comportamental, ou física. No caso presente, poderíamos admitir que era este o pensamento do jardineiro:

Com estes pés te piso, ó terra mãe
Com estas mãos te afago, ó flor singela
Se as deixar morrer, morro também
Porque mal me quer outra flor mais bela

Será isto também uma metáfora? O leitor que decida!)

- Eles não dão valor ao nosso trabalho. Pagam mal e a más horas, julgam que um freelancer vive do ar. Não se apercebem das dificuldades que nós temos para conseguir um maldito furo!…

A estagiária mantinha-se serenamente enroscada; concordava com ele. As queixas do seu amante eram semelhantes às que ela própria tinha acumulado durante estes seis longos meses. Trabalho e mais trabalho: pesquisa aqui, dá uma ajuda ali, arquiva acolá. Sempre sem um ai, sem um queixume, sem um trejeito que traísse a angústia que lhe ia na alma. Tudo fazia para sair da condição de estagiária, sonhando com o dia em que a tratariam por Jornalista, com trabalhos publicados. Trabalhos que, entretanto, ia acumulando no fundo da gaveta de baixo.
Esperou debalde!

- E quando eu sair, tu vens comigo! Largas o que estás a fazer, e pisgas-te. Já decidimos! – continuava o freelancer, quase em solilóquio.

Florbela continuava calada. Apertava o seu companheiro e dizia mentalmente: – fá-lo, fá-lo, fá-lo! E ele cumpriu a promessa, como já sabemos.

A caminho do Ritz

Depois de completamente informados dos elementos principais que deram origem ao, chamemos-lhe assim, “problema do fecho”, já estavam na rua quando Miguel explodiu:

- Estás a ver a desfaçatez daquela dupla, ó Gonçalo? O gordo do Miguel, numa de Chefe, a puxar pelos galões: que tinha responsabilidades tremendas, que a Revista Especial era um projecto que ele próprio tinha acarinhado, que uma Revista não se pode dirigir de ânimo leve, e não sei que mais! E o sombra, solícito, lambe-botas, a concordar com tudo: que o Chefe tinha razão, que conhecia bem a dedicação do Chefe à causa da Revista, que o dever está acima de tudo… Depois, vem-nos com aquela tirada de intelectualóide meningítico, a dourar a pílula: que a coisa talvez até nem nos fosse difícil, que já tínhamos dado provas da nossa capacidade literária, quer na Revista, quer noutros trabalhos publicados num passado recente…
Há certas alturas em que me apetece mudar de nome!

- Calma, Miguel, não caias nessa! Não te esqueças que o universo literário tem grandes autores que te são homónimos! Repara: o Unamuno, era Miguel; o Cervantes, era Miguel; o Torga, era Miguel; e o outro Tavares, também é Miguel…

- Está certo. Mas olha que o Rei Usurpador também era Miguel, e fizeram-lhe a folha. E ainda hoje se mantêm questões e quezílias por resolver!

- É como dizes, mas esse não era dado às escritas! Apesar dos pesares, não devemos renegar o nosso nome! Eu, por mim, sinto-me satisfeito com o nome que me deram; não tem o prestígio do teu, mas sempre reflecte um certo tom de azul…

- Oh pá, Gonçalo, o que me dá neura, e uma neura das grandes, é fingirem que nos consideram e depois “convidarem-nos” para fechar a Revista, como se fôssemos escritores de segunda. Isso é trabalho para frilanças e estagiários. Nós temos uma reputação a defender!

- É verdade que sim, mas não penses nisso agora, Miguel. Temos de nos concentrar no conto. Ouve, vamos ao Gambrinus comer uns ovos à espanhola; entre uma garfada e outra, construímos o esqueleto do dito!

- Hoje, O Gambrinus deve estar superlotado por causa da Cimeira; vamos antes ao Ritz, os morfes lá também não são maus! – emendou Miguel.

- Pronto, vamos ao Ritz! Apanhamos um táxi, para ser mais rápido. O stress da reunião e o adiantado da hora deixaram-me com alguma fome…

Esperaram quinze minutos; quanto a táxis: zero. Miguel, sempre o mais rezingão e acutilante dos dois, quer fosse pela fome, pela idade avançada, ou por uma questão figadal, remata a espera e inicia a caminhada com esta tirada fulminante:

- Não me digas que a puta da Florbela apanhou o último táxi… Se é verdade o que disse o Chefe Miguel, a esta hora está enroscada ao frilança. Ele, livre de roupa e de lança em riste, e ela toda nua, com a rosa vermelha a palpitar de desejo…

Desceram até ao Saldanha, passaram pela Maternidade, e continuaram a descida pela Fontes Pereira de Melo até ao Marquês. Subiram, finalmente, a Joaquim António de Aguiar.
Gonçalo, se fosse só, teria feito o caminho de uma acentada. Mas não ia. Ao seu lado caminhava um homem alguns anos mais velho, triste e acabrunhado, que caminhava lentamente, coxeando, com o sobretudo totalmente fechado, e as mãos rigidamente enfiadas nas algibeiras.
Gonçalo acompanhava o passo de Miguel, sem uma crítica, sem qualquer incentivo que denunciasse o desconforto da caminhada. E se não falava, não era por pena nem constrangimento. Não se deve ter pena de quem escolhe viver com uma sofreguidão desmesurada, e chega à plenitude, ou decrepitude, mais cedo que os outros. São escolhas…
Constrangimento também não tinha; sempre soube o que queria, sabe sempre o que quer, e nunca se absteve de falar nos momentos propícios a um reparo necessário. Era o respeito que o calava; respeito pela vida e respeito pelo tempo. Mas, acima de tudo, respeito pelo seu amigo Miguel.

No Ritz

Quase todas as sete colinas da cosmopolita cidade de Lisboa têm locais privilegiados. Locais de sonho, onde os olhos se regalam numa visão panorâmica de extraordinária beleza, que o espelho do Tejo reflecte com uma fidelidade possante e intemporal. Locais de contemplação, de calma e deslumbramento, mas também de nostalgia, de Fado e de mistério. O Varanda do Hotel Ritz era um deles; principalmente à noite.

Inebriados pela paisagem, ou pelo álcool das bebidas entretanto consumidas, o facto é que o diálogo entre os dois amigos decorria agora mais solto e mais alegre, possibilitando a apresentação de vários cenários, de vários argumentos, que servissem de base à escrita do conto.

Contudo, fosse por falta de consenso entre duas mentes brilhantes, fosse por idiossincrasias de estilo, ou inexequibilidade em tempo útil, a solução final teimava em não aparecer.

Até que um deles, não me lembro qual, teve esta excelente, inusitada e definitiva ideia:

- Transformamos o problema em solução!

Miguel levantou-se, foi ao bengaleiro, e retirou do bolso interior do sobretudo o moleskine “Chatwin” que sempre o acompanhava, e onde tinha rabiscado várias notas durante a reunião que tiveram na Redacção.
Gonçalo leu as notas, Miguel releu-as, e ambos concordaram que o “problema do fecho” continha, efectivamente, a solução. E a solução estava na metamorfose do próprio “problema do fecho” num “conto policial”, que passou a ser um “conto de natal”, depois de temperado com alguns termos evocativos do tema, e os nomes alterados para não ferir susceptibilidades.

Depois de algumas tentativas, acertaram as bases do conto com as premissas seguintes:

Sinopse
A acção decorre em Lisboa em plena época natalícia. Um jardineiro telefona para a polícia e dá conhecimento do desaparecimento da sua mulher, presumivelmente adúltera, na noite de Natal. O detective de serviço é informado do facto pelo seu ajudante. Vão cear a um hotel de Lisboa para desanuviar a mente e estabelecer um plano de acção para o caso. Depois de algumas considerações sobre os motivos que levaram o jardineiro a telefonar para a polícia, e das razões que levaram a mulher a desaparecer, se era efectivamente um desaparecimento, recolheram-se aos seus aposentos. No dia seguinte tomam conhecimento que a mulher do jardineiro tinha voltado para casa (não foi um desaparecimento) e deram o caso por encerrado.

Personagens: 4
duas activas (com fala) e duas passivas (por referência):

a) O Chefe Miguel, passou a ser o detective Sancho. Fácil, e quase automático, se pensarmos na semelhança física com o Sancho Pança de Cervantes;

b) O adjunto Gonçalo, transformou-se em ajudante do detective Sancho, com o nome alterado para Holmes, pela similitude entre o seu carácter analítico e o lendário Sherlock, magistralmente criado por Sir Arthur Conan Doyle. Manteve-se a hierarquia. Com as hierarquias não se brinca…

c) A estagiária Florbela, passou de ausente a desaparecida. O seu nome foi adulterado para Maria F.; um nome deixado incompleto para dar mais consistência a uma situação de mistério. Perde o seu estatuto de estagiária, e não chega a ser personagem activa, por ausente. Perde tudo…

d) No Jardineiro, marido de Florbela, não se tocou. Continua com o status, as agruras e a tragédia. Nem se modificou o seu epíteto. Penso que não terá sido por malvadez dos autores. Acredito, sinceramente acredito, que houve uma necessidade literária de suporte à justificação do desaparecimento de Maria F.

e) O freelancer foi, pura e simplesmente, abandonado.

Ao fim de pouco tempo, só faltava decidir se o conto seria escrito por quatro mãos entrelaçadas, ou se o seria por duas mais duas; escolheu-se a segunda hipótese, por estar mais na moda…

Miguel pegou nas notas respeitantes à sua parte do texto, e foi-lhe acrescentando descrições resumidas de cada uma das personagens, e alguma prosa que iria dar corpo ao conto. Gonçalo, por seu lado, concentrava-se na mesma tarefa. E o conto desenvolvia-se e tomava forma.

- Pronto, já está! – disseram Miguel e Gonçalo quase em uníssono.

- Estás a ver, Miguel, como ainda temos alguma imaginação criadora!?

- É verdade, Gonçalo, parece que ainda não lhe perdi o jeito…

- Agora só falta dar os últimos retoques, convidar o Rui Ricardo para tratar do grafismo, e entregar o “A noite ideal” na Redacção. É melhor tratarmos disso amanhã porque a noite já vai longa. O que te parece, Miguel?

- Claro! Mas antes de sairmos fechamos com chave d’ouro, com mais um malte. For the road…

- Atenção, Miguel! Não te fará mal!?

- Um dia não são dias, Gonçalo! E, a bem dizer, este é o primeiro de hoje…

Na Redacção (II)

- Dá licença, Chefe? – perguntou o adjunto Gonçalo, batendo com os nós dos dedos na porta entreaberta, mas entrando sem esperar pela resposta.

O Chefe Miguel não se preocupou, desta vez, a guardar os amendois na gaveta, mas executou o acto reflexo de limpar o sal da camisa com a mão esquerda, enquanto a direita folheava displicentemente a Revista Especial.

- Faça favor, Gonçalo! Quer um amendoim com sal!?

- Não, obrigado, Chefe. O meu estômago não é como o do Chefe; não aguenta tudo…

Por um fugaz momento, gerou-se uma onda rápida de sinapses simultâneas no cérebro do Chefe Miguel, que despoletaram uma miríade de associações. Porém, quer fosse por deficiência de serotonina, ou por outro mal congénito, só uma delas teve o condão de accionar o sistema nervoso periférico, e o Chefe Miguel disse:

- Estava a ler a Revista Especial. Olhe que o conto não está mau de todo!!

- Vê como ficou tudo resolvido a contento, Chefe!?. Eu sempre disse que o Chefe tem um jeito especial para resolver os problemas…

- Tenho que ter, Gonçalo, tenho que ter… Mas, diga-me o que o trás cá agora!

- Ah, sim! Está lá fora a nova estagiária! Quer que a mande entrar!?…

No fundo, inventamos histórias, para sublimar a mediocridade da nossa vida real. A ficção nada cria, nada destrói. É autofágica e alimenta-se do humus da sua contínua transformação.


Os Livros

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Os livros comportam-se exactamente de maneira contrária aos pombos-correio: vende-se um pombo-correio de manhã, e à tarde ele volta (dá lucro…); compra-se um livro de manhã e à tarde já temos um “amigo” a pedir emprestado, que nunca mais o devolve (dá prejuizo…).

Refiro-me aqui ao lucro pessoal: financeiro (no primeiro caso) e financeiro e cultural (no segundo).

Existe prejuízo financeiro quando ficamos com menos valor do que tinhamos antes da operação (no caso em apreço, ficamos sem o valor que demos pelo livro, e sem o livro); existe ganho financeiro quando aumentamos (no caso em apreço, ficamos com o dinheiro da venda do pombo-correio, mais o pombo-correio; é como “roubar galinhas e vendê-las ao dono”).

Existe prejuízo cultural quando ficamos privados da aculturação inerente à leitura de (quase) qualquer livro, a meio do processo de tomada de conhecimentos, livro esse que tivemos o interesse e o gosto de comprar, pelo simples facto de o emprestarmos apressadamente (embora com todo o gosto, não duvido…) a um “amigo” “interessado” no seu conteúdo; enquanto o livro não é devolvido (se o for…) ficamos a remoer na “metade” que já lemos, tirando (mesmo que inconscientemente) ilações erradas ou erróneas, por não termos abarcado a obra no seu todo; quando o livro é devolvido, ficamos contentes e eufóricos (porque gostamos do assunto de que trata), e reatamos a leitura, quase de imediato, na tentativa de diminuir o hiato de tempo gasto, e encontrar novamente “o fio da meada”; se o interesse for muito forte, opressivo, apressamo-nos a dar uma saltada à livraria, comprando outro exemplar pois, para quem gosta de livros, é sempre muito mais fácil (psicologicamente falando…) gastar mais uns “cobres” do que privar o detentor do livro dessa aculturação que tanto prezamos.

Existe lucro cultural quando ficamos mais “ricos” em conhecimentos, em espírito crítico, em aprimoramento da fala e da escrita, em discernimento na leitura, em melhoria na análise do mundo que nos rodeia, em cultura; este valor, por meio dos livros, é sempre muito maior, e tem muito mais “peso”, do que o valor monetário que demos pela compra do livro.

Eu não tenho nada contra emprestar ou dar livros, desde que esse empréstimo, ou essa dádiva, sirva para o aumento da “riqueza” cultural de quem os toma por emprestados, ou de quem os recebe como oferta. No entanto, devemos ser pragmáticos; na maioria das vezes, o interesse do “interessado” no nosso livro vem simplesmente da assumpção de que o conteúdo talvez valha a pena uma leitura, porque nós o compràmos; ele não pergunta : ” – onde compraste essa obra ? quero ir lá comprar um exemplar para mim !”; tomando o livro emprestado, a meio da leitura do proprietário, ele não diz ” – acaba de ler primeiro, emprestas-mo quando tiveres acabado de ler…”; não, ele aceita !

Tive um colega de escritório que sopesava os livros e conferia o número de páginas para julgar sobre o seu “valor”, em face do preço do mesmo; para ele, um romance de “cowboys” com 500 páginas valeria muito mais que uma simples folha de papel, velha e suja; não importando que essa folha contivesse as fórmulas da Teoria Da Relatividade de Einstein…

Além disso, há bastantes livros nos escaparates cujo conteúdo é autêntico “lixo”, sendo a sua compra um “luxo”, qualquer que seja o valor que gastemos; lendo esses livros ficamos embrutecidos, confundidos, enganados; ficamos culturalmente mais pobres.

No jornal “24 horas” (edição de hoje, ou de ontem) vem, na primeira página, uma notícia sobre a escritora Margarida Rebelo Pinto; a notícia diz, em resumo, que uma professora universitária garante que os livros da M.R.P. têm muitos erros e são auto-reciclados; quer dizer, ela copia temas e partes de romances anteriormente escritos por ela, baralha e torna a dar… um romance “novo”; não sei se a análise é correcta ou não, porque não os leio, mas acredito que a falta de assunto, a “facilidade” da escrita e as pressões das editoras venham a dar nisto.

O que escrevi acima acerca do lucro ou prejuízo de emprestar ou dar livros, só se refere a livros ainda em processo de leitura e cimentação dos textos, e não dos livros já lidos, estudados e assimilados, que vão para a prateleira da estante fazer companhia aos outros que lá estão; velhos, tristes, quedos, moribundos, esperando ansiosamente um mero olhar que se fixa, uma mão que se aproxima, uns dedos que folheiam; nessa altura eles rejuvenescem e brilham, qual fénix renascida; nessa altura, a sua alegria é tanta que chega, muitas vezes, a transbordar para o leitor putativo; os livros são “cidadãos do mundo”, gostam de viajar, de conhecer novas gentes, novas culturas, novos pensamentos, novas ideias.

Mas os livros precisam ter muito cuidado com as mãos que os agarram; é por isso que eles não chamam todas as pessoas que lhes passam em frente; esperam ansiosa e pacientemente pelo seu eleito; aquele que lhes vai dar um novo ânimo, tratando-os com o respeito que merecem, e tirando o devido proveito da sua verve; às vezes enganam-se (até os livros se enganam…) e acabam servindo de apoio na mudança de uma lâmpada, ou virados e revirados numa qualquer fotocopiadora de província ou, pior ainda, despedaçados e atirados para a fogueira, por via de um qualquer index fundamentalista; para isso, mais valia que os deixassem na sua dormência e quietude até ao final dos tempos…


As Criança

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Quando se lê o título deste texto, afirmar-se-á, de imediato, que existe ali um erro; mais concretamente um erro de sintaxe, pela não concordância de número entre o artigo e o substantivo; para ficar gramaticalmente correcto, deveria escrever-se “as crianças”, ou “a criança”.

Contudo, está presente quem me pediu, melhor dizendo, quem me obrigou a colocar assim o título (ele está sempre presente quando escrevo), e que me diz:

“É dessa maneira que o quero escrito não faça qualquer tipo de alteração pois só assim eu consigo transmitir completamente as emoções que sinto e senti quando fui envolvido naquele acontecimento que transcende todo o tipo de racionalidade”

E eu não altero…

“A gramática é um espartilho que limita e distorce a realidade dos factos da história do tempo das contradições das angústias do choque das ligações entre o passado e o futuro a memória a imaginação a estabelecer uma ordem onde ela não existe no caos fervilhante das sinapses do pensamento emotivo”

- Espere, deixe-me colocar a pontuação…

“Ao diabo com a gramática escritor dum raio surdo e impertinente me ralam as pontuações que não sou reles escriba que se preocupa com caracteres gráficos com pontos e vírgulas com sintagmas rio choro tenho um coração uma alma alegrias tristezas angústias sentimentos em catadupa que se misturam se contradizem se negam”

Eu remeto-me à minha modesta condição de relator, e continuo a transcrever…

“Vi a criança perdida no meio da linha do comboio só desamparada foi a criança outra que vi foi a criança neta que vi uma criança que era as duas uma outra ao mesmo tempo qual reverso das visões de um alcoolizado que vê em duplicado o objecto físico do seu campo de visão e peguei na criança ao colo e fugi com ela para a gare foi a criança neta que estreitei nos braços foi a criança outra que confortei a criança neta que salvei a criança outra a quem emprestei um avô momentâneo a criança neta a quem perguntei pela mãe”

Eu só passo para o papel o que ouço, e nada mais…

“A menina outra neta apontava para aqui para acolá para o sítio onde estaria a mãe que deveria estar ali com ela mas não estava com a menina neta outra ao colo de um avô que não era que o foi esperando a mãe que era sem ter sido homem neta criança avô envoltos num laço deslaço emocional de ligações perdidas achadas que faz parar o tempo e encurta o espaço”

Eu não interrompo, continuo a relatar…

“A mãe apareceu aflita chorosa o melhor do mundo são as crianças também choro por ti que as abandonas as maltratas as conspurcas homem com h pequeno pequeníssimo avo de ser racional em nome autoaplicado sem actos inconstante inconsciente por elas que te crêem te adoram te respeitam idolatram imitam na sua cândida ingenuidade simplicidade de rebento indefeso”

Eu não concordo, nem discordo; como diria Pessoa : eu escrevo…

“Levei a criança outra a casa da criança neta em pensamento que me saltou para o pescoço e abracei e beijei a criança outra em pensamento na criança neta e a criança neta que não a outra em pensamento abrimos os presentes da criança neta que não a criança outra que também lá estava em pensamento e as criança brincou com os brinquedos de ambas em pensamento…”

Não quero fazer futurologia, mas estou em crer que estas crianças , sem o saber, vão ficar ligadas para sempre, como siamesas espirituais, até ao fim da vida deste homem avô; se ele entretanto não vier a sofrer da Doença de Alzheimer…


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